José Luís Horta – “Maxinó”

José Luís Horta, nasceu no Montijo a 24 de Janeiro de 1945, no “mundillo” taurino é conhecido por “Maxinó”, um nome que se tornou uma legenda da forcadagem nacional.

 

A propósito de apodo de Maxinó, José Luís Horta explica: “ Fiquei conhecido por Maxinó” porque era o nome de um índio famoso, o pai de Cochise. A minha cor de pele, também ajudou a compor essa personagem.”

 

Sobre o seu início no “mundillo” dos toiros Maxinó diz: “Comecei aos 11 anos a tourear a pé em garraiadas, depois entrei nos espectáculos do António Augusto, o famoso “El Índio Apache”, tinha eu 14 anos. A pegar comecei aos 13 anos, numa trupe cómica. Entre os 17 e 18 anos, comecei a pegar toiros e nunca mais pensei em ser novilheiro.

Primeiro entrei para os forcados da Tertúlia Tauromáquica do Montijo, depois passei a integrar os forcados Amadores do Montijo, onde estive até ao final da minha longa carreira de forcado, que durou cerca de 30 anos, nesse período passei ainda pelos Lusitanos.”

 

Folheando o álbum de recordações de José Luís Horta continua: “ Nos forcados Amadores do Montijo, tive como cabos o António Sécio, João Pina, Fernando Fernandes, Rogério Amaro e Rafael Figueiredo. No grupo era pau para toda a obra, pegava de caras, ajudava e também cernelhava.”

 

A propósito da dificuldade da consumação das pegas, Maxinó comenta: “Para mim, chegou a uma altura em que os toiros que pegava à primeira tentativa não tinham sabor, o que para mim já tinha sabor eram aqueles que eram pegados à terceira tentativa, ou à quarta, ou à sétima tentativa, aí é que para mim tinha sabor.”

 

Depois de um momento de reflexão, José luís Horta retoma o discurso: “As minhas grandes pegas, foram à custa de levar grandes tareias dos toiros.” José Luís Horta faz uma pausa, olha para o infinito, numa expressão em que parece estar a observar os “filmes” dessas pegas duras, enquanto que a título da informação, aqui se recorda um dos inúmeros episódios da carreira de José Luís Horta, que teve lugar na Praça de Toiros da Moita, na época em que o cabo do grupo era o Rogério Amaro, o Maxinó, foi “dobrar” um companheiro que se havia lesionado e frente a um poderoso toiro de 628kg. da Ganadaria Passanha, conseguiu consumar a pegar à sétima tentativa, já depois do toiro e após grande “briga” se ter desembolado. O público entrou em delírio com tal feito e o inédito na História da Tauromaquia Portuguesa aconteceu, o forcado sai da praça de Toiros da Moita em ombros perante o delírio de uma multidão de aficionados e percorre em ombros toda a avenida que dá acesso à Praça de Toiros. Em forcados, é até à actualidade um acontecimento único.

 

Voltando ao discurso, José Luís Horta continua: “Valeu a pena ser forcado, se tivesse agora 14 ou 15 anos, voltava a fazer a mesma coisa, agora se calhar começava logo como forcado, não passava por aquela fase em que queria ser novilheiro.”

 

Sobre os seus filhos, Maxinó comenta: “Tive dois filhos que chegaram a pegar os dois comigo. Se calhar tinha mais problemas quando estavam eles a pegar, do que quando eu estava, doía-me mais. Foi uma coisa que eles gostaram, não foram maus forcados também. Um infelizmente até me faleceu novo, mas até foi giro, agora até  me nasceu um neto (ano 2008), vamos lá ver o que é que ele vai ser, não sei se vai ser forcado, mas pelo menos “baptizado” de Maxinó já está, pode ser um princípio.”

 

Sobre as características dos toiros analisa: “Os toiros da minha altura eram tratados pelos ganadeiros de outra maneira, não comiam tanta farinha, eram mais musculados, e não caíam para o chão, como agora com frequência acontece.” E continua: “Mas eu repito, para quem gosta de pegar toiros, tem que ter um toiro que dê luta, porque senão aquilo não tem sabor.”

 

Acerca do ingresso nos Forcados Amadores do Montijo, José Luís Horta recorda: “Na minha altura para entrar nos Amadores do Montijo era um bocado complicado, porque na altura havia muitos e bons forcados e quem quisesse entrar e ter direito à jaqueta, primeiro tinha de prestar muitas provas cá fora, primeiro nas largadas com os toiros em pontas ou embolados, conforme eles apareciam e depois nos treinos.”

 

A propósito dos forcados da actualidade, Maxinó comenta: “Um defeito que os forcados da actualidade têm é arriscar quando não o devem fazer, não têm noção do tempo oportuno para arriscar. Na minha altura de forcado, tentei sempre com o pouco ou muito conhecimento que tinha, fazer as coisas o mais direitas possíveis, embora por vezes não corressem lá muito bem. Aos forcados da actualidade deixo a mensagem de que tenham tino na maneira de colocar os toiros, que é aí que eles falham muito, ver bem as querenças dos toiros, isso é muito importante.

José Barral

Para que se possa entender a origem dos Forcados Amadores do Montijo, e porque é uma referência como eficiente e oportuno ajuda, exemplo do genuíno espírito do “forcado”, é importante ouvir em discurso directo o patriarca do Clã Barral.

 

José Lamosa Barral, nasceu em Cascais a 2 de Janeiro de 1943, seus pais são oriundo da Galiza de uma terra conhecida pelas suas termas e águas medicinais que se denomina Mondariz.

 

Mas o importante é ouvir José Barral em discurso directo: “Nasci em Cascais, depois fui para Coruche, onde o meu pai foi inaugurar o Restaurante Coruja, que era propriedade do ganadeiro António José Teixeira, depois disso, o meu pai veio para o Montijo, para ser gerente do extinto Café Nacional, onde hoje se situa a sucursal de um banco. Entretanto o meu pai comprou um barracão de carvoaria, arranjou aquilo à maneira dele e fez café e restaurante, depois vendeu aquilo ao único correeiro que fica no centro da cidade do Montijo, a Correaria Ferreira. O meu pai foi-se embora para a Galiza e eu fiquei por cá e por cá continuo. Casei com uma alentejana natural de Cuba, não estou nada represo, é uma excelente mulher, não estou nada arrependido.”

 

A propósito da fundação dos Forcados Amadores do Montijo, o melhor é continuar a ouvir José Barral em discurso directo. “Quanto à fundação dos Amadores do Montijo, é uma história muito engraçada. Houve uma divergência com um indivíduo que na altura fazia parte da Direcção da Tertúlia Tauromáquica do Montijo, que se chamava Carlos Ramos. Esse senhor exigia que os forcados, todo o dinheiro que recebiam das corridas que o entregassem à colectividade. Ora a colectividade não contribuía em nada para a manutenção do Grupo, para nos deslocarmos para as corridas tínhamos de juntar o dinheiro de todos para os transportes, muitas vezes o dinheiro que recebíamos das corridas, nem dava para comermos e ainda exigia, quando sobrava algum dinheiro que o entregássemos à colectividade.

 

Os forcados surgiram na Tertúlia Tauromáquica do Montijo, quando na altura tínhamos 17 anos, eu e os meus amigos éramos aquilo que se diz da mesma peara, um deles que era o João Pina, um individuo extraordinário, muito bonito na cara dos toiros e era um polivalente, tanto pegava de caras como ia de cernelha. Era muito vaidoso e disse-nos “eu este ano, vou pegar toiros”, e em resposta o grupo de amigos respondeu em uníssono “ai tu vais, então nós também vamos”, e assim arranjámos sete ou oito indivíduos daquele bairro, que era o bairro Serrano e fomos todos para a Tertúlia, que na época era a única associação taurina que havia no Montijo e foi assim, que se fundou o grupo de forcados na Tertúlia Tauromáquica do Montijo, sim porque antigamente, havia forcados no Montijo que eram os forcados aquilo a que chamávamos os Forcados da borda de água, que eram os homens que trabalhavam no cais. Connosco apareceu o primeiro grupo de forcados organizado no Montijo.

Entretanto houve uma reunião com a Direcção por haver com o senhor Carlos Ramos que pertencia à Direcção da Tertúlia Tauromáquica do Montijo, a tal divergência que já referi.

 

Nessa reunião para alem dos forcados, estava presente um sócio honorário da colectividade, e a ele muito ficou a dever a fundação do grupo de Forcados da Tertúlia Tauromáquica do Montijo, que é o senhor Engenheiro José Samuel Lupi, que a dada altura da reunião, pediu a autorização para usar da palavra e esse senhor Carlos Ramos, teve o desplante de dizer: “Não senhor, não tem a palavra, porque o senhor nem sequer é sócio desta colectividade.” Em face de tal afirmação, o Engenheiro José Samuel Lupi levantou-se e disse: “Meus amigos, quem é do boi e me quiser seguir, façam o favor”, e dirigiu-se para as escadas que davam acesso à rua. Escusado será dizer que foi a malta toda, ficando na reunião, para além do senhor Carlos Ramos, os restantes elementos da Direcção.

Nessa noite saímos da sede da Tertúlia Tauromáquica do Montijo e fomos logo reunir no Café Portugal, marcámos logo uma reunião nos escritórios da antiga Premol, que era do Engenheiro Beatriz, um taurino que gostava muito da Festa e depois marcámos mais uma reunião para a quinta-feira seguinte, para em definitivo avançar com os estatutos e tudo quanto era necessário para organizar o novo Grupo, que passou a designar-se por Grupo de Forcados Amadores do Montijo.”

 

Quanto ao clã Barral, continuamos a ouvir José Barral em discurso directo: “Depois casei, nasceram os filhos, foram crescendo e viam o pai a pegar toiros, mas atenção, nunca os influenciei em nada para pegarem toiros.

O meu pai quando eu fui para os forcados, arranjou-me uma mala com roupa e pôs-me fora de casa.

 

Os meus filhos sempre foram livres de optar para irem ou não para os forcados.

Entretanto o meu filho mais velho o José Manuel, que hoje tem 41 anos (ano 2008) começou-se logo a salientar nos Juvenis, que naquela altura iam para o Abiul, Nazaré, por aí fora, fazer vacadas, destacava-se a ajudar, depois veio o Paulo como caras e depois veio o Luís como rabejador dos Juvenis e assim nasceu a ideia dos miúdos começarem a pegar toiros também.”

 

Recordando um momento difícil que viveu quando forcado e que não gosta muito de falar, foi sobre a colhida fatal do cavaleiro Quim-Zé, no Campo Pequeno no ano de 1996.

“O toiro que colheu mortalmente o cavaleiro Quim-Zé Correia, em 1996, no Campo Pequeno, foi pegado de caras pelo cabo dos Amadores do Montijo da época, o Sécio, que foi ajudado pelo Margalhau, que já não está cá entre os vivos e quem o rabejou fui eu. O toiro tinha o nome de “Carvoeiro” e pesava 580kgs.”

 

Continuando a falar dos Forcados Amadores do Montijo, José Barral diz: “O Grupo começou a aparecer em força e o facto de nunca recusarem corridas duras, que os outros se mostravam indisponíveis para as pegar, começou a destacar o Grupo, lembro-me por exemplo, que poucos queriam pegar os Passanhas e nós nunca os recusámos e pegávamos com grande êxito, daí em 1970, termos ganho o Troféu Imprensa, que distinguiu o Melhor Grupo de Forcados da Temporada.”

 

Ainda sobre o Clã Barral, recorda: “Um ano em Salvaterra de Magos, frente a um imponente curro de toiros Grave, o Paulo e o Luís pegaram de caras e o José Manuel (a cernelhar) e eu a rabejar, pegamos outro toiro.”